Interpretação médica no Brasil – primeiros passos

Eu fui vice-presidente interina de uma das organizações de certificação de intérpretes de medicina dos Estados Unidos, a “National Board of Certification for Medical Interpreters”, em 2010, e tenho acompanhado com muito interesse o que está acontecendo no Brasil naquele âmbito.

Embora tenha aprendido muito durante meu mandato, na verdade o aprendizado se iniciou em 2008, quando fui trabalhar com a Aliança Nacional para Certificação de Intérpretes de Medicina, em inglês “National Coalition for Certification of Medical Interpreters”, que serviu de semente para a “National Board”, mencionada acima, e a “Certification Commission for Healthcare Interpreters” (CCHI).

Eu descobri a complexidade do processo de determinação de parâmetros das qualificações, os requisitos de nível de conhecimento que o intérprete da área médica deveria ter e também como lidar com os profissionais falantes de línguas de pouca difusão.

A dificuldade não estava só na determinação do nível de conhecimento de alguém.  A questão era muito mais profunda que isso. O nível mínimo de escolaridade proposto era o bacharelado, o que era um grande problema para refugiados em cujos países de origem cursos de nível superior não existiam ou eram de difícil acesso. Seria injusto para pessoas com o conhecimento necessário e com o treinamento necessário não poderem exercer a profissão de intérprete por falta da documentação requerida. Conciliar essa aparente disparidade, entre conhecimento e registro acadêmico deste conhecimento, era um problema muito grande. Esse é apenas um exemplo da complexidade de todo o processo. Um outro era a determinação dos idiomas para os quais os exames seriam criados.

Como determinar se um indivíduo tem a capacidade de servir como intérprete na área médica? Para muitos desses idiomas de pouca difusão os testes ainda não existem. Nos Estados Unidos, a solução encontrada foi a criação de testes buscando determinar o conhecimento do indivíduo sobre o vocabulário médico e farmacológico em inglês.

A premissa era que se o indivíduo tivesse capacidade de compreender o que estava sendo dito em inglês era porque em seu idioma nativo ele também tinha aquele conhecimento. O paralelismo do conhecimento era a base para aceitação do indivíduo como capaz de servir naquele papel de intérprete da área de medicina.

Já a escolha de para quais idiomas criar os exames foi mais fácil. Nos Estados Unidos, estatísticas são muito poderosas e presentes em quase todos os aspectos da sociedade, o que permitiu mapear os idiomas mais falados dentro do país, por região. Com base nos índices estatísticos, os idiomas escolhidos foram o árabe, coreano, cantonês, espanhol, mandarim, russo e vietnamita

Quando falamos de estabelecer um serviço de interpretação médica no Brasil todos esses fatores me vêm à cabeça.  Vendo o trabalho sendo desenvolvido pelos vários colegas da área de tradução e interpretação em medicina oferecendo treinamento e cursos, capacitando indivíduos para servirem como intérpretes e tradutores na área médica, noto que o processo está sendo desenvolvido com muito cuidado e responsabilidade. Tenho curiosidade em saber quantos idiomas estão sendo representados e como a comunidade refugiada está sendo servida nesse processo. Tenho grande admiração por todos os envolvidos no processo de difusão e desenvolvimento desta (não tão) nova profissão.

Giovanna (Gio) Lester, atual presidente da Abrates, trabalha no campo de tradução e interpretação desde 1980. Gio é afiliada a várias organizações profissionais de tradução e interpretação, entre elas, a nova seção da American Translators Association na Flórida, a Associação de Tradutores e Intérpretes da Flórida (ATIF), da qual é cofundadora, foi a primeira presidente eleita (2011-2012) e foi nomeada presidente interina em 2015. Também foi presidente do Comitê Consultivo de Tradução e Interpretação do Miami Dade College, vice-presidente da National Board of Certification for Medical Interpreters, administradora da Divisão de Intérpretes da American Translators Association, copresidente do Comitê de Mídia Social da NAJIT (associação de intérpretes e tradutores jurídicos), editora do The NAJIT Observer, publicação semanal da NAJIT. Além de organizar eventos profissionais – locais e internacionais, ela já criou e contribui para publicações online e impressas: The Chronicle (ATA), Protheus e The NAJIT Observer (NAJIT), Speaking Out! (ATIF) CMI Tides (National Board of Certification for Medical Interpreters), Lingua Greca e InterpretAmerica.

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